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Uso de drogas entre estudantes de medicina
Uso, na vida, de algum tipo de droga, por estudantes de medicina do Estado de São Paulo, em 1994/95, do 1º ao 6º ano de curso (total= 3.725)

Três casos envolvendo drogas e estudantes de medicina mereceram destaque, ano passado, no noticiário policial da imprensa brasileira. Numa festa para os novos alunos da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, um calouro foi encontrado morto dentro da piscina, em meio à bebedeira generalizada; os culpados e as circunstâncias precisas em que se deu o incidente ainda estão sendo investigados. Em Sorocaba (SP), durante uma brincadeira de mau gosto chamada "Maratoma" - já tradicional naquele campus - estudantes de Medicina da PUC jogaram álcool e atearam fogo num colega, com a colaboração de um médico.

Laranjeira: Cocaína é a grande novidade

oi pouco. Uma nova ocorrência chocaria o País e, em maior grau, a população da cidade de São Paulo. Sob efeito de cocaína, um jovem de classe média alta, aluno da Faculdade de Medicina da Santa Casa, foi ao cinema num shopping center; assistiu os minutos iniciais da fita em que, digamos, predominava a violência; retirou-se ao banheiro, admirou-se no espelho e voltou ao salão para disparar uma submetralhadora contra a platéia, matando três pessoas.
O fato de os incidentes terem sido protagonizados por futuros médicos, observa-se, deve ser tratado como uma triste coincidência. O consumo de drogas nas faculdades de medicina é preocupante, mas não extrapola os níveis observados em outros cursos. Mas, afinal, como, por quê e com que finalidade um estudante de medicina acaba se entregando às drogas?

Diversão e escape

"Acredito que, inicialmente, ele se droga para se divertir, a não ser quando utiliza benzodiazepínicos", diz Ronaldo Laranjeira, professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. "Com o passar do tempo, essa diversão começa a virar problema. Mesmo o estudante de medicina não tem uma boa percepção do risco que as drogas representam."
Professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos Álcool e Drogas), Arthur Guerra de Andrade acha que a própria sobrecarga dos cursos médicos contribui para um primeiro contato com as drogas. "O ingresso numa faculdade de medicina

rthur Guerra: Álcool é a mais utilizada

já envolve uma competição desgastante, que compromete boa parte do tempo do adolescente. Ele abre mão do lazer, dos namoros, dos esportes. Mais tarde, pode querer compensar o ‘tempo perdido’ vivendo uma espécie de adolescência tardia. O contato com as drogas insere-se nesse contexto.

Álcool em primeiro

"Apesar de o quadro do uso de drogas vir mudando da década de 70 para cá, o álcool esteve sempre presente entre os estudantes, não só os de medicina. O perfil de abuso de álcool é muito comum", afirma Ronaldo Laranjeira. "A boa notícia é que o consumo de tabaco está diminuindo. Entretanto, acho que a grande novidade foi o uso de cocaína, que até o final dos anos 80 era desprezível. Ainda não é a droga mais consumida, mas está mais presente."
Uma pesquisa do Grea - que analisou alunos do primeiro ao sexto ano de nove escolas médicas do Estado de São Paulo, matriculados em 1994 (veja quadro) - constatou a prevalência das seguintes substâncias, em ordem decrescente, entre os estudantes: álcool, tabaco, solventes, maconha, tranqüilizantes e cocaína. Os maiores índices de consumo foram observados nos últimos anos do curso.
"A droga mais usada é o álcool. Entre as ilícitas, a maconha. Depois, dependendo do ano em que o aluno está, vêm os solventes – ele chega a roubar, inicialmente, para levar à festas. Especialmente entre as moças, aparecem os tranqüilizantes, como diazepan, diempax e lexotan", relata Guerra de Andrade. "Na medicina, o exemplo não é a melhor forma de transmitir alguma coisa a alguém – é a única. Se você não cuida de si próprio, como poderá cuidar do seu paciente?", indaga.

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